Sinopse do enredo da Piedade para o Carnaval de Vitória 2027

Logo do enredo da Unidos da Piedade para o Carnaval de Vitória 2027

Leia a sinopse do enredo da Unidos da Piedade para o Carnaval de Vitória 2027.

Raiar da Liberdade

“Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
Deixa-me ser tambor
Corpo e alma só tambor
Só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu…
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens,
Eu quero ser tambor
E nem rio
E nem flor
E nem zagaia por enquanto
E nem mesmo poesia.

Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!

Oh velho Deus dos homens,
Deixa-me ser tambor
Só tambor!”

José Craveirinha

A NOITE

A liberdade sempre ecoou dentro dos corações daqueles que carregam a noite na pele. Eram
livres em África. Mas quando os navios chegaram na margem de lá, o horizonte escureceu e
fez-se a noite. Foram traficados. Diziam que eram desalmados.

Noite escura, densa, enluarada. Clarão de lua que servia de lumiar pelo caminho.

“Oh mar, por que não apagas de tuas vagas essas marcas?”

O mar era mãe. Revoltada, carregava em seu lombo, obrigada, os próprios filhos. A ela cabia
apenas conduzir os que insistiam em viver e acolher em seu corpo o repouso daqueles que
não se deixaram aprisionar.

Moço, deixa eu olhar teu corpo? É só pra ver se o tempo não apagou as marcas do cativeiro.
Tempo branco que apagou tanta coisa, não vê? Menos o som do meu couro. Eu ressoava a
cada batida do coração, lembrando daquela terra distante, do outro lado do mar, onde a
liberdade era senhora.

O poeta dizia: “Oh velho Deus dos homens, deixa-me ser tambor”. Nego só queria ser livre
como a batida do tambor. Mas esse tal Deus, quem é? Foi em nome dele que correu suor,
sangue e lágrimas. Disseram que mandou acorrentar. Ah, se soubesse como doeu, não
mandava.

Doeu tanto, fio. Mas resisti. Às vezes nem meu couro batia. O próprio corpo era o couro, em
cada batida na pele o pulsar para que a memória da terra-mãe não morresse dentro de cada
um.

A insurgência já gritava naqueles corpos. Mãos e pernas atadas por grilhões, mas jamais
aprisionaram suas almas, seus desejos ou seus pensamentos. A velha sensação de liberdade
corria pelas veias e se apresentava como certeza.

A noite parecia eterna, mas um clarão rompeu a escuridão.

Uma luz vinha ao longe, embalada pelo compasso dos trilhos. Os dormentes carregavam a
notícia tão esperada. A Maria-Fumaça cortava a noite trazendo consigo a alvorada.

E quando seu apito rasgou o silêncio, ouviu-se o anúncio que durante séculos habitara os
sonhos de um povo:

— A liberdade raiou!

O CREPÚSCULO

“Tava dormindo quando o senhor me chamou…
Levanta, nego, cativeiro acabou…”

A notícia correu ligeiramente.

Os negros de ganho que trabalhavam na estação foram os primeiros a espalhá-la. Do
quilombo à casa-grande, passando pela senzala, ninguém falava de outra coisa.

Dizem que quem carregava cantil d’água jogou longe. Quem segurava enxada e foice
deixou cair no chão. Os olhos se encontravam sem precisar de palavras. Abraços apertados
venciam décadas de dor. Lágrimas corriam livres pela primeira vez.

Alguém surgiu na sacada com uma toalha estendida ao vento “RAIOU A LIBERDADE”.

As negras que cozinhavam para a sinhá começaram a cantarolar entre risos e lágrimas:

“Sinhá, já varri sua cozinha… Hoje não varro mais!”

Parecia sonho.
Mas era verdade.

Nego Adão, que andava pelas rodas de caxambu das redondezas, teve uma ideia. Se não
houvesse tambor, o povo faria tambor. Ajuntou a comunidade, reuniu os companheiros e
trouxe os velhos caixotes de querosene. Ao redor de uma fogueira improvisada, começaram
a batucar a liberdade que ainda nem sabiam como viver.

“Princesa foi-se embora
E escreveu num papelão:
Quem quiser comer trabalhe
Com suas próprias mãos.”

E correram de todo canto. Vieram homens e mulheres das fazendas, das senzalas, do
quilombo e das ruas. A multidão tomou a frente da Câmara. Tambor ainda não existia,
então fizeram dos caixotes seus tambores.

E eu toquei.
Toquei três dias e três noites.
Toquei para os que sobreviveram.
Toquei para os que ficaram pelo caminho.
Toquei para os que sonharam com aquele dia e não puderam vê-lo.

Foi festa. Foi pão, vinho, circo e realidade.

Mas enquanto meus couros cantavam, os jornais já anunciavam o incômodo dos
poderosos. Liberais e conservadores observavam assustados a felicidade que desfilava
pelas ruas. Porque a liberdade dos negros nunca coube inteira nos projetos dos homens.

E quando o batuque cessou, a realidade bateu à porta. A Lei Áurea havia sido assinada.
Mas para onde ir? Onde morar? O que comer? Como viver? A escravidão havia acabado no
papel. Mas teria acabado de verdade?

Assim, entre a alegria do primeiro clarão e as incertezas do novo dia, o crepúsculo seguiu
seu caminho, preparando o povo para construir, com as próprias mãos, o amanhecer que
ainda estava por vir.

A AURORA

O povo de Nego Adão retornou ao quilombo e seguiu a vida.

Monte Alegre se esconde no abraço da mata, onde o tempo caminha mais devagar e a vida
pulsa mais perto da terra. Foi ali que o povo aprendeu aquilo que a liberdade dos papéis
não ensinava. Porque a verdadeira liberdade floresce nos territórios de resistência, onde o
tambor guarda a memória e a comunidade constrói seu próprio amanhecer.

Foi ali que eu permaneci.
Guardando histórias e nomes.
Guardando os passos daqueles que vieram antes.

As rodas de caxambu, desde os tempos de Nego Adão até os dias de Maria Laurinda,
guardam segredos que o tempo não ousou roubar. Há coisas que vi na roda que não me
cabe contar.

Os segredos não pertencem às palavras. Moram no couro, no fogo e no silêncio que existe
entre uma cantiga e outra.

As rodas nasceram ainda no tempo do cativeiro. Eram resistência e refúgio. Diversão e
desafio. Enquanto o corpo suportava o peso da escravidão, a alma encontrava caminhos
para permanecer livre.

Nos versos, a ironia zombava da casa-grande. No riso, a dor encontrava descanso. No
batuque, o povo reencontrava a si mesmo. Mas a roda também é mistério.

É reza.
É fundamento.
É encontro entre os que estão aqui e os que seguem vivos na memória.

Muita coisa aconteceu ao redor dessas fogueiras. Coisas que meu couro testemunhou e
que a lembrança embalou através das gerações. A fogueira liga o céu à terra. Une passado
e presente. Ancestrais e descendentes. Sem ela não existe caxambu.

Ao seu redor repousam os dois guardiões da roda: o Caxambu, tambor maior que dita o
compasso da festa, e o Candongueiro, que responde, conversa e completa a fala do irmão
mais velho.

E assim seguimos.
De geração em geração.
De toque em toque.
De memória em memória.

Cumadi Ilinha escreveu seu nome nessa história ao tornar-se a primeira mulher a tocar o
Caxambu. Fez do couro sua voz e mostrou que a tradição também sabe florescer. E quando
o assunto é manter acesa a chama da ancestralidade, o destino reservou a Maria Laurinda
uma missão especial.

Parteira, coveira. mãe de santo e mestra do Caxambu. Presença no início e no fim.

É ela quem recebe a vida que chega e quem se despede da vida que parte. É ela quem cuida
dos vivos e conversa com os ancestrais. É ela quem mantém acesa a chama dos Canjerês, das giras de santo que viraram Umbanda, herdada dos mais velhos, guardando saberes que
atravessaram gerações.

Mas Maria também carrega outra responsabilidade: não deixar o Raiar ser esquecido. E o faz
com alegria, orgulho e devoção.

Por isso o 13 de maio faz Monte Alegre pulsar mais forte. É a razão de ser da festa. É o dia
em que os tambores falam mais alto. É o dia em que os Pretos Velhos são saudados. É o dia
em que a comunidade relembra os caminhos percorridos por aqueles que transformaram a
resistência em liberdade.

“No dia 13 de maio, asa branca a liberdade sobrevoou
No dia 13 de maio o cativeiro acabou
Foi tão grande a alegria nesse dia
Que o preto-velho chorou
Chorou, ele chorou
De alegria quando o cativeiro acabou”

E assim o quilombo permanece. Como uma chama que o tempo não conseguiu apagar. Como
uma fenda luminosa aberta no meio da história. Como África viva. Como aurora. Porque antes
de o Sol nascer por inteiro, é preciso que a memória ilumine o horizonte.

O RAIAR

O Raiar da Liberdade é mais que uma festa. Não é apenas lembrança. Não é apenas
comemoração. Não é apenas memória. É um ritual vivo.

A cada 13 de maio, Monte Alegre reabre as páginas da própria história e transforma
lembrança em presença. O que aconteceu ontem volta a caminhar entre nós. O passado
senta-se ao redor da fogueira e conversa com o presente. É o dia em que a liberdade
amanhece outra vez.

A celebração começa com a Missa Afro. As vozes se elevam entre rezas e cantorias:

“Dança aí, negro nagô Oh, oh, oh…
O negro mora em palafita,
Não é culpa dele, não senhor.
A culpa é da abolição,
Que veio e não o libertou…”

Enquanto isso, Cumadi Ilinha acende a fogueira.

Ao seu calor, repousam o Caxambu e o Candongueiro. O fogo aquece os couros, afina as
vozes dos tambores e desperta os ancestrais que habitam a memória da comunidade.

A festa começa a florescer. Versos são puxados. Corpos dançam. Palmas respondem.
Sorrisos se multiplicam.

O palhaço anuncia a folia. Os Reis Magos são saudados.

“Oh de casa!
Oh de fora!”

E o terreiro desperta. Os atabaques ecoam acompanhados pelo berimbau. A roda de capoeira
gira tirando versos que também falam dos tempos do cativeiro. Os corpos desenham círculos
no ar. Bastões e facões riscam o vento em movimentos de força e beleza.

É a capoeira.
É o maculelê.
É a memória transformada em dança.

“Boa noite, pra quem é de boa noite…”

As chitas coloridas rodopiam e as fitas bailam ao vento. Os batuques se espalham. As
cantorias se multiplicam. E o Boi Pintadinho surge entre o povo, girando pelo terreiro e
despertando sorrisos nas crianças.

Logo depois, flechas cruzam os céus em movimentos coreografados. A banda toca. As
palmas acompanham. O Bate-Flechas chega louvando São Sebastião:

“Viva! Viva! Viva!
Mártir São Sebastião,
Desse centro é protetor.
Protegei todos os irmãos…”

E cantando:

“Meu senhor da casa, aí, aí…
Escutai, nobre senhor, ai, aí…”

A Charola entra em cortejo para saudar os donos da casa e reverenciar o santo flechado.
Pouco a pouco, as manifestações tomam conta do terreiro.

Cada canto. Cada dança. Cada verso. Cada batuque. Tudo se encontra ao redor da fogueira.
Até que chega o momento mais esperado. O instante em que o tempo parece parar.

Maria Laurinda aproxima-se dos tambores. Sua mão repousa sobre o Caxambu e o
Candongueiro. O silêncio toma conta da roda. Então sua voz entoa:

“Aê, aê, aê, aê…
Pai, Filho e Espírito Santo,
Na hora de Deus, amém.”

E eu desperto. Mais uma vez. Como despertei há gerações. Como despertei no tempo de
Nego Adão. Como despertei quando a notícia da liberdade correu pelos trilhos.

Está aberta a roda do Caxambu Santa Cruz. A razão de ser de Monte Alegre. A alma do Raiar
da Liberdade.

Os jongos começam. As palmas respondem. As vozes se unem. A comunidade inteira canta
com os pulmões cheios de memória. Porque o 13 de maio é dia de celebrar a liberdade. É
dia de honrar os ancestrais. É dia de recordar os que resistiram. Os que tombaram. Os que
sobreviveram. Os que nunca aceitaram o cativeiro como destino. E enquanto a roda gira,
percebo que a liberdade não é um ponto de chegada.

É caminho. É luta. É memória. É permanência.

A aurora agora se transforma em Sol. A chama da fogueira encontra a luz do horizonte. E o
primeiro raio do amanhecer toca novamente a pele do quilombo. Então compreendo.

Depois de tantos séculos. Depois de tanta dor. Depois de tanta resistência. Era isso que eu
anunciava desde o princípio. Era isso que ecoava em meu couro. Era isso que atravessava
gerações.

Oh, senhora Liberdade, abraça teus filhos. Que a Piedade seja o primeiro raio no horizonte,
assim como a liberdade foi naquele 13 de maio. Que os tambores da Ritmo Forte ecoem os
sonhos dos tambores de Monte Alegre.

Oh, senhora Liberdade, faz valer cada lágrima derramada. Faz florescer o sacrifício dos
ancestrais. Faz da memória um caminho para o futuro. E permita que os tambores anunciem
ao mundo aquilo que esperei tanto tempo para dizer:

RAIOU A LIBERDADE!

“Adeus, adeus, meus filhos,
Eu vou simbora.
Vocês ficam com Deus,
Que eu vou com Nossa Senhora.”

Autor do enredo: Vanderson César

Regulamento do concurso de samba-enredo da Piedade

Carnaval Capixaba