Sinopse do enredo da Jucutuquara para o Carnaval de Vitória 2026

Logo do enredo "Arreda homem que aí vem mulher", da Unidos de Jucutuquara, para 2026.

A Unidos de Jucutuquara será a terceira escola a desfilar no Sambão do Povo, na sexta-feira de Grupo Especial do Carnaval de Vitória 2026. Com o enredo “Arreda homem que ai vem mulher”, do estreante Marcelo Braga, a escola busca uma melhor colocação após ter ficado em sexto lugar no Carnaval 2025.

SINOPSE

Antes do mito, fui carne.
Antes da reza, fui mulher.
Fui coroa arrancada,
mas jamais deixei de ser rainha.

Me negaram o altar,
me apagaram da história,
mas segui – incendiando o tempo.
Cruzei oceanos em silêncio,
e ao tocar o Brasil,
despertei em corpo de chama,
em riso que corta,
em salto que desafia o chão.

Não precisei de trono pra ser temida.
Não precisei de fogueira pra arder.
Dancei com o leque, com a rosa,
com a navalha escondida no peito.
Fiz do ventre um templo,
do prazer, um feitiço.
Fui amante e abandono,
cura e maldição.

Falo com as mulheres esquecidas,
com os homens quebrados,
com os corpos que o mundo tentou negar.
Eu sou o sussurro que levanta,
o grito que liberta.
Trabalho por quem sangra e não silencia.
Por quem goza e não se esconde.
Por quem entende:
vergonha não é pecado —
pecado é não viver.

Sou madrinha dos que brilham no escuro.
Espelho da liberdade que assusta.
Sou a encruzilhada que mora em você.

Não me curvei ao fogo,
não me rendi ao medo.
Fui rainha sem coroa,
bruxa sem fogueira,
amante sem perdão.

E ainda estou aqui.
No rastro do perfume.
Na beira do copo.
No passo da mulher que não abaixa a
cabeça.
No axé que dança entre o céu e o inferno.
Sou rosa que corta.
Sou vento que vira destino.
Sou Padilha.

Se meu nome te assusta,
é porque minha história te provoca.

Marcelo Braga
Carnavalesco

JUSTIFICATIVA

A escolha do enredo “Arreda Homem Que Aí Vem Mulher” surge da necessidade urgente de revisitar, reconhecer e celebrar as múltiplas formas de poder feminino que desafiaram – e continuam a desafiar – as estruturas patriarcais, racistas e moralistas que regem o mundo. Maria Padilha, uma figura histórica e entidade espiritual, personifica o enfrentamento dessas forças opressoras com altivez, inteligência, sensualidade e fé.

Ao abordarmos sua trajetória desde a corte espanhola até sua presença nos terreiros e ruas brasileiras, revelamos como figuras como Padilha foram demonizadas por desafiarem padrões de gênero e sexualidade. Transformada em entidade de culto afro-brasileiro, ela se tornou um símbolo de resistência para mulheres, travestis, profissionais do sexo, pessoas periféricas e todos os corpos dissidentes que lutam por respeito e espaço.

Dados do IBGE e do Atlas da Violência (2023) mostram que mulheres negras continuam sendo as principais vítimas de violência no Brasil. Além disso, o país lidera os índices de assassinato de pessoas LGBTQIA+ e enfrenta uma crescente onda de intolerância religiosa, com mais de 1.500 denúncias de ataques a terreiros apenas em 2022, segundo o Disque 100. Ao trazer Maria Padilha para o centro do carnaval, damos voz a essas histórias silenciadas e utilizamos a arte como ferramenta de transformação. O samba-enredo não é apenas uma homenagem; é denúncia, fé, cura e reconexão com um Brasil profundo, espiritual e político.

Este enredo, ao unir teatro, fé, história, corpo e poesia, propõe um desfile que pulsa com a força de quem não se cala. É um grito coletivo: Arreda, homem. Que aí vem mulher. Que aí vem Maria Padilha.

Padilha é mais do que uma personagem do imaginário popular. Ela é símbolo de força, transgressão, beleza e liberdade, uma ponte entre mundos: o passado europeu medieval e o presente urbano brasileiro; a história das mulheres silenciadas e a voz das Pombagiras que giram nos terreiros das grandes cidades. Por isso, este desfile se propõe a contar – com cor, dança e som – a história dessa entidade que se tornou espelho para tantas existências.

Nascida em 1334 e falecida em 1361, Maria Padilha foi uma nobre castelhana, amante e, posteriormente, esposa do rei Pedro I de Castela. Sua trajetória desafiou as convenções de sua época: foi acusada de bruxaria, de seduzir o rei e de influenciar suas decisões políticas. Ainda em vida, já era uma lenda. Com o tempo, sua imagem se confundiu com a de uma mulher perigosa, sensual, conhecedora de saberes ocultos – uma bruxa, uma feiticeira.

A travessia simbólica dessa mulher para o Brasil ocorreu com o sincretismo religioso. Maria Padilha transformou-se em entidade espiritual cultuada nas religiões afro-brasileiras, especialmente na Umbanda e na Quimbanda. É uma das Pombagiras mais conhecidas e reverenciadas – senhora dos prazeres, das encruzilhadas, da sensualidade, da proteção e do fogo. Sua imagem sintetiza o poder feminino em sua forma mais crua: desejo, independência, magia, riso e faca. E isso incomoda. Desde os tempos em que foi acusada de bruxaria até os dias de hoje, Padilha continua sendo alvo de tentativas de silenciamento – pela Igreja, pelo Estado e pela sociedade conservadora.

Contar a história de Maria Padilha na avenida é um ato político, educativo e urgente. Vivemos em um país onde o preconceito religioso segue alarmante. De acordo com o Ministério dos Direitos Humanos, o Brasil registrou mais de 1.200 denúncias de intolerância religiosa só em 2023. Terreiros são incendiados, lideranças espirituais negras são perseguidas e, em muitos casos, silenciadas.

Além disso, há um grave déficit educacional. A Lei no 10.639/2003, que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, é sistematicamente ignorada. Poucos jovens sabem que o samba nasceu nos terreiros, que a Umbanda é uma religião brasileira e que entidades como Maria Padilha são expressões de resistência, sabedoria e ancestralidade.

O desfile é, assim, uma aula viva: uma aula de corpo, som e alma. Um livro aberto que ensina pelo encanto e pela força. Ao homenagearmos Maria Padilha, educamos sem dogmas, sem violência, sem imposições – apenas com a beleza de sua história e a potência de sua simbologia.

Maria Padilha não é apenas uma entidade dos terreiros. Ela vive nas mulheres que não abaixam a cabeça; nos homens que se permitem chorar; nos corpos que dançam sua liberdade; em cada pessoa que transforma dor em beleza. Ela é madrinha das travestis que resistem nas ruas, amparo das mães solteiras, força para os que foram abusados, oprimidos e esquecidos. Padilha é símbolo de tudo que é considerado “pecado” pelos olhos da moral, mas que é sagrado aos olhos do coração.

Seu culto é também cultura. É expressão de uma espiritualidade popular que merece respeito. Sua dança é resistência, sua gargalhada é cura, seu salto alto é armadura. Por isso, sua história precisa ser contada, mostrada, vivida.

No Brasil de hoje, onde discursos de ódio se multiplicam e a diversidade é constantemente atacada, o desfile de Padilha é também um manifesto. Um manifesto pelo direito à fé, ao prazer, à diferença, à ancestralidade e à liberdade.

Ao trazer Maria Padilha para a avenida, não estamos apenas reverenciando uma entidade. Estamos afirmando: nenhuma história será apagada. Nenhuma fé será silenciada. Nenhuma mulher será queimada – nem na vida, nem na memória.

Este desfile é altar e encruzilhada. É livro e terreiro. É espelho de um Brasil que precisa se olhar com mais amor, mais verdade e mais coragem. Porque Padilha somos todos nós. E no batuque do tambor, no giro da saia, no brilho da avenida… Padilha vive.

Carnaval Capixaba