A Andaraí será última escola a desfilar na segunda noite do Grupo Especial do Carnaval de Vitória. O enredo “01/12/1946” está sendo desenvolvido pelo carnavalesco Alex Santiago, que foi campeão do Grupo de Acesso com a escola em 2025 e permaneceu.
01/12/1946
Foi no coração ardente de Santa Martha, ao meio-dia dourado de um 1º de dezembro de 1946, que o céu se abriu em festa e os orixás lançaram sua bênção. Sob o signo flamejante de Sagitário, nasceu a estrela da Andaraí – uma estrela que não apenas brilha, mas caminha, dança e ensina sua comunidade.
O Sol sagitariano nos deu a alma dos viajantes sagrados, das palavras que encantam e dos enredos que atravessam continentes como flechas de luz. Somos feitos de esperança, liberdade e fé. Cada samba nosso é bússola para quem perdeu o norte e tambor para quem quer reencontrar sua história.
Mas não viemos ao mundo sozinhos. No céu do nascimento, havia a Lua em Áries – a guerreira do coração! Foi ela quem nos ensinou a lutar com coragem e levantar com garra. Somos batuque que resiste, povo que canta ferido e ainda assim, sorri com o peito aberto.
E foi Oxumarê, o arco-íris que dança entre céu e terra, quem soprou seu axé sobre a cobra-naja que nos guarda! Cobra que rasteja, que se transforma, que renasce em sabedoria. Oxumarê é o elo que nos liga ao ancestral, ao mistério, à eternidade. Ele é o fio dourado que costura nossos enredos, é serpente e chuva, é tambor e trovão! A força vital da nossa escola não se explica, se sente: ela muda de cor, muda de forma, mas nunca deixa de ser sagrada.
Mas antes do primeiro desfile, no templo sagrado da Naja coroada, repousava a sabedoria dos enredos que viriam. Ali, no ventre da serpente que rasteja entre mundos e carrega a coroa da resistência, brotaram histórias encantadas que educaram gerações e forjaram uma comunidade em torno da fé, do samba e do saber.
Mercúrio em Sagitário colocou nas bocas dos nossos poetas a palavra que liberta: somos escola que ensina sambando! De cada enredo nasce um mundo, de cada verso uma profecia. Somos o samba que sabe, o saber que canta!
Com Vênus em Escorpião, nossa beleza é ancestral, encantada, cheia de mistério. Não somos apenas brilho: somos memória de terreiro, perfume de mata, dança dos
Marte em Libra nos move com equilíbrio, criando harmonia até mesmo na guerra do desfile. Nossos passos são de justiça e beleza, nossas coreografias são como espelhos d’água onde Oxumarê se enxerga e se alegra.
Júpiter em Escorpião expande nossa fé nos segredos do invisível, enquanto Saturno em Leão exige que brilhemos com honra, que nossa coroa nunca caia da cabeça nem do coração.
E no horizonte dos nossos sonhos, o Ascendente em Peixes conduz a escola com doçura, espiritualidade e emoção. Somos feitos de maré e de miragem, de axé e de aurora.
Sim, nascemos do céu e da mata, da estrela e da cobra, do arco-íris e do tambor. Somos Andaraí, filhos de Oxumarê, e seguimos desfilando entre mundos com a bênção do alto e a força da ancestralidade
Não somos só escola de samba, somos escola de alma. Em cada batuque, em cada ala, um ensinamento; em cada fantasia, uma lição. Oxumarê — o orixá que se transforma em arco-íris e serpente — quem nos ungiu com seu mistério. Ele é movimento, é renovação, é ponte entre o céu e a terra. É dele a força que faz da nossa cobra-naja uma guardiã do conhecimento e do recomeço.
Nossos enredos não passam. Eles permanecem. Como livros abertos que cruzam a avenida, como versos que germinam nas calçadas da comunidade. Ensinaram a criança, despertaram o ancião, inspiraram o artista, curaram a dor. E por isso, tornaram-se eternos.
E quando o relógio marcar 3h30 da madrugada, de 07/02/2026, o céu da cidade presépio se veste com o mesmo brilho da noite em que nascemos. A serpente sagrada se ergue no Sambão do povo, coroada de luz e história, arrastando consigo um povo inteiro embalado por sabedoria e fé.
A bateria “Puro Veneno” vira trovão, e sob o arco-íris de Oxumarê, a avenida se torna um templo aberto, onde cada batuque é reza, cada passo é ensinamento, cada lágrima é consagração.
Do alto da última alegoria, a Naja coroada olha para seu povo – filhos, netos, sambistas e aprendizes – e, silenciosa, sopra em seus corações o ensinamento eterno:
SABER É RESISTIR. SAMBA É ENSINAR. E QUEM CARREGA A SABEDORIA NO PEITO JAMAIS CAMINHA SOZINHO
Axé, vitória, sabedoria! Que o mapa do nosso céu continue traçando enredos que curam, que ensinam, que emocionam!
SINOPSE
Sob a luz dos astros, um destino foi traçado: da estrela cadente que cortou os céus do Mulembá à serpente dourada que desceu em arco-íris sobre o povo. É com fé, garra e ancestralidade que a Andaraí refaz sua travessia pelo tempo e espaço, desfilando sua própria história como constelação viva do samba capixaba.
Em seu primeiro setor, a Verdiosa inaugura a avenida com a comissão de frente “Na Flecha do Sol”, atravessando os signos de Sagitário e Áries — onde o Sol desperta o futuro e a Lua dança com coragem ancestral. A saga começa nas estrelas, com Oxumarê, orixá do ciclo e da renovação, abençoando a escola com seu arco-íris sagrado. Da constelação simbólica da naja à batida dos tambores, nasce uma escola regida pelo céu e pelos orixás.
No segundo setor, os pés tocam o chão fértil de Mulembá — atual Santa Martha. Ali, entre a bola e o tambor, o futebol de várzea deu origem à batucada do Andaraí, transformando paixão em escola de samba. O bloco azul e branco, batizado pelas cores verde e rosa da Mangueira, torna-se a Verdiosa. Entre conquistas, batuques e bandeiras hasteadas, ecoa o grito de um povo que nunca deixou de sonhar. O tripé “Do Campo ao Trono” exalta a resistência que virou tradição.
O terceiro setor mergulha na década de 1990 — era dourada da Andaraí. A Naja é escolhida como símbolo oficial e, sob sua força protetora, a escola conquista um tricampeonato histórico com enredos que exaltam a Revolta de Queimados, a memória oral de nossas avós e a ancestralidade indígena de Aracruz. Mas o ciclo do samba também tem silêncio. A parada entre 1993 e 1998 é marcada por saudade. E o renascimento vem em 1999 com o enredo “Amores da Lua” — onde congo e carnaval se fundem no afeto. A segunda alegoria, “A Árvore Encantada”, simboliza o replantar da fé e cultura: entre raízes mágicas e a imagem protetora de Santa Martha, a escola floresce mais uma vez.
No quarto setor, a Verdiosa pisa firme no chão das lutas populares. Entre pedras, cor e redenção, exalta a força do povo capixaba. O samba canta o mármore e o granito, as ferragens e a fé dos barracos à beira do mangue. Enredos como “A Ferro e Fogo”, “São Pedro: A Terra Sonhada” e “Milson Henriques” ganham vida em alas criativas e alegorias pungentes. O manguezal, lama fértil da resistência, se torna berço e palco. O tripé “Mangue da Redenção” homenageia as ocupações, a fé e a beleza dos territórios esquecidos.
E por fim, no quinto setor, a escola abraça a eternidade. Na madrugada de 7 de fevereiro de 2026, a lua dança em Libra e o sol desperta em Aquário. No céu, signos alinham-se como bênçãos do destino. A Verdiosa, agora madura e estelar, torna-se templo e constelação. O segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira surge como Guardião do Tempo e do Zodíaco. A terceira alegoria, “O Templo Estelar da Naja”, ergue a serpente dourada em glória. Os livros se abrem. As estrelas descem. O povo de Santa Martha, que nasceu do barro e do tambor, agora samba entre os astros.