Por: Isaac Ribeiro
A primeira vez que o engenheiro de automação, Wagner Ribeiro, 48 anos, viu alguém vestido com uma fantasia de carnaval, ele ainda era criança. O folião era o seu pai, o comerciante Alamir Pereira Ribeiro, que iria desfilar em uma escola de samba em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.
Filho único, Wagner nasceu no estado do Rio de Janeiro, mas mora no Espírito Santo desde 1998. Em 2001, foi morar em Vitória. É casado com a funcionária pública Quezia Ribeiro e tem duas filhas.
Em 2024, a história da família ganhou um capítulo difícil: seu Alamir, então com 78 anos, foi diagnosticado com câncer. Ele iniciou o tratamento, mas não resistiu à doença. Wagner teve dificuldade para lidar com a perda do pai.
Muito além da figura paterna, seu Alamir era a referência familiar, o bom amigo, uma inspiração e o companheiro de torcida pelo Flamengo.

“Fiquei um mês com meu pai no hospital. Depois, ele ficou mais um mês em casa fazendo tratamento paliativo. Ele não resistiu e morreu em julho de 2024”
Wagner Ribeiro, ritmista da Chegou o Que Faltava
A notícia do falecimento e a saudade diária transformaram a rotina de Wagner. Preocupada com a mudança de comportamento do marido, Quezia começou a pensar no que poderia fazer para ajudar o Wagner a suportar a ausência que ele sentia do seu Alamir.
“Fiquei mal, muito triste com a morte do meu pai. Minha esposa sabia que eu tinha o sonho de participar de uma bateria de escola de samba e me inscreveu na oficina de percussão da Chegou o Que Faltava”, disse.
Wagner foi à aula com a esposa e as filhas, em março do ano passado. Até então, nunca havia tido contato com instrumentos de bateria. Durante três meses de curso, recebeu instruções práticas e aprendeu a tocar o surdo de marcação.
Ao final da oficina, Wagner foi convidado a integrar a bateria Ritmo Nervoso como ritmista. Foi a sua estreia na função. Antes, havia desfilado no carnaval capixaba somente como componente de uma agremiação.
“Fui muito bem acolhido por todos. Desde que entrei na oficina, sou apaixonado, fiel e agradecido à Chegou por tudo que ela representou em um período difícil da minha vida. Ser convidado para desfilar como ritmista foi a realização de um sonho”
Wagner Ribeiro, ritmista da Chegou o Que Faltava
Além dos familiares e amigos, ninguém na escola sabia que o pai de Wagner havia falecido. Porém, na semana do carnaval do ano passado, sua esposa enviou uma mensagem aos mestres de bateria Jorge Borges e Alcino Júnior.
No texto, ela contou pelo que Wagner estava passando desde que começou as aulas de percussão na agremiação.

“A minha história emocionou todo mundo no barracão. A oficina foi uma coisa muito boa que me aconteceu. Os ensaios são nossos encontros semanais onde celebramos e impulsionamos a escola rumo ao primeiro título da história. A escola quer muito isso e eu também quero estar lá quando acontecer.
Wagner Ribeiro, ritmista da Chegou o Que Faltava
Quezia lembra que tomou a iniciativa de inscrever o marido na oficina como um gesto de cuidado. Ao notar mudanças no comportamento de Wagner, ela suspeitou que ele pudesse estar desenvolvendo um quadro de depressão.
“A escola reúne pessoas completamente diferentes com o objetivo de formar um corpo coeso de som e criar aquela orquestra. A oficina deu ao Wagner uma nova perspectiva de pertencimento e trouxe um outro olhar para a vida dele e à nossa também. Fez muito bem a ele”, declara.
Hoje, Wagner reconhece que a participação na oficina trouxe um novo sentido à sua vida. Enquanto concedia, por telefone, a entrevista ao portal Capixabices, estava se preparando para correr e praticar exercícios no calçadão de Camburi.
“A depressão é relativa para quem tem, porque a pessoa é uma das últimas a perceber. Quem está ao redor nota antes de você. Pelo o que a Queiza fala comigo, eu estava no estágio (depressivo), sim. Eu estava muito desanimado, porque sou muito ativo. A escola foi uma cura meio que imediata. (A oficina) foi um processo que me ajudou a sair dessa situação”
Wagner Ribeiro, ritmista da Chegou o Que Faltava
Neste ano, ele já voltou a ensaiar para participar do desfile do Grupo Especial do Carnaval de Vitória 2027, marcado para os dias 29 e 30 de janeiro, no Sambão do Povo. A Chegou o Que Faltava será a segunda agremiação a passar na avenida na sexta-feira (29).
O enredo vai para o ano que vem é “Pedras que Cantam”, tema inspirado na vila de Itaúnas, em Conceição da Barra, cidade localizada no Norte do Espírito Santo. O desfile vai abordar a memória, meio ambiente, resistência e a força cultural da região.
“A música acompanha e aconselha em momentos difíceis da vida”, diz psicólogo
A frase é do psicólogo clínico Layon Almeida, gestor de saúde e presidente da Cooperativa de Trabalho dos Psicólogos do Espírito Santo (Coopsi-ES). Antes de seguir a carreira na psicologia, ele já tinha contato com o universo musical, uma experiência que, segundo ele, marcou sua trajetória de vida.
“Minha história, em particular, teve altos e baixos, e a música teve o poder de me acompanhar, aconselhar e acolher em muitos momentos difíceis da vida”, ressalta o psicólogo.

Segundo Layon, a música tem um papel importante na regulação emocional e funciona como uma espécie de “válvula de escape” para sentimentos como tristeza, raiva, indignação ou alegria.
“No momento de tristeza, quando você tem um instrumento musical à sua disposição ou quando você ouve uma música, essa criação tem o poder de acompanhar essa experiência e te ajudar a sublimar. Por meio dela é possível colocar o sentimento para fora ao invés de reprimi-lo ou guardá-lo, e isso acabar te causando mal estar e adoecimento interno”, orienta.
Ouça o áudio: psicológo afirma que tocar instrumento ativa sistema de recompensa do cérebro
Oficina contemplada em edital social
A oficina da qual Wagner Ribeiro fez parte é um projeto idealizado pela Chegou o Que Faltava, realizado desde 2021. O objetivo é oferecer aulas de percussão e fazer com que, caso a escola e os participantes tenham interesse, os formados integrem a bateria Ritmo Nervoso.
O presidente da escola, Rafael Cavalieri, explicou que o Projeto de Percussão já foi contemplado no 5º e no 7º Editais de Projetos Sociais do Sicoob ES. Ele informou que a oficina forma, anualmente, cerca de 230 alunos e alunas.
Em 2023, o contemplado foi o Projeto Escola de Ritmistas – Projeto ACES Chegou O Que Faltava. O intuito era “reunir crianças e jovens para ensinar a base de cada um dos instrumentos e diversas aulas práticas para apresentar e aflorar a musicalidade”, diz um trecho da proposta.
Em 2025, foi aprovado o Projeto de Percussão da Bateria Ritmo Nervoso. Segundo o resumo submetido ao edital, o “objetivo era “promover a formação artística, cultural e social de crianças, adolescentes e jovens das comunidades atendidas por meio do ensino da percussão voltada para a linguagem das baterias de escolas de samba, fortalecendo a tradição do samba, incentivando a valorização da cultura popular e contribuindo para o desenvolvimento pessoal e coletivo dos participantes”.
De acordo com o presidente, “a oficina ajuda bastante porque tínhamos dificuldade em formar pessoas para a bateria e formar torcedores para a escola. A maioria do público mora na Grande Goiabeiras. Realizar esse projeto só foi possível por causa do edital do Sicoob”.
Rafael contou ainda que, após ter sido contemplado com os recursos do edital do Sicoob, surgiram oito novos parceiros dispostos a apoiar a iniciativa, por reconhecerem a seriedade do projeto. O dinheiro recebido é todo destinado à manutenção da bateria.
“Alguns profissionais da escola são pagos. Esse recurso do edital é todo voltado para a bateria, seja na compra de instrumento ou para o pagamento dos diretores e mestres. A gente tem aula três vezes na semana em diferentes locais da região”, explica o presidente.
As oficinas começam no primeiro semestre de cada ano e duram cerca de três meses. As incrições são gratuitas e podem ser feitas a partir de um formulário divulgado nas mídias sociais da escola. Não é necessário ter instrumento, e a idade mínima para participar é 8 anos.
O estudante de fisioterapia, Vandeir Filho, de 22 anos, mora em Goiabeiras. Em 2021, fez a oficina, aprendeu a tocar repique e passou a integrar a bateria da escola. Ele garante que qualquer pessoa inscrita consegue aprender.
“O carnaval é uma cultura que tem que crescer ainda mais. A pessoa pode estar o mais triste o que for, mas quando chega à escola, ela abre o sorriso e espanta tudo aquilo que não é bom”
Vandeir Filho, ritmista

Os mestres de bateria, Jorge Borges e Alcino Júnior, reforçam a ideia de que a oficina forma ritmistas e torcedores. “A bateria tem que ser mantida durante o ano todo. É formada por 150, 180 ritmistas. Hoje podemos dizer que a gente está começando a montar uma bateria de verdade após três anos de oficina. Por isso, apoios como esse do Sicoob são tão importantes”, frisa Jorge.
Já o mestre Alcino diz que a oficina movimenta os setores artístico, profissional e cultural da região metropolitana. Ele destaca que, após a formação, as pessoas podem tocar em outras escolas de samba e blocos ou participar de diversas manifestações culturais e musicais.
“Esse investimento que a Sicoob traz para a nossa escola fortalece tanto a cultura do carnaval capixaba quanto a cultura do bairro e a escola de Goiabeiras. Formamos pessoas apaixonadas pelo carnaval que podem atuar em outros centros culturais”, enfatiza Alcino.
O presidente da escola revelou que ele também foi integrante de projetos sociais. Atualmente, a Associação Cultural Chegou o Que Faltava coordena 42 projetos sociais nas mais diferentes áreas como balé e escolas de futebol na Grande Vitória, Piúma e Itapemirim.
“Fazer carnaval exige amor acima de tudo. Plantamos a semente e estamos colhendo os frutos. Ver as pessoas celebrando a escola é um sonho realizado. Muita gente trabalhou até aqui, mas parte disso também foi possível graças aos editais do Sicoob”
Rafael Cavalieri, presidente da Chegou o Que Faltava

Sicoob já investiu mais de R$ 28 milhões em projetos
O Sicoob é uma instituição financeira cooperativa com mais de 9 milhões de cooperados, presente em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Ao longo de oito edições, o Edital Social já destinou mais de R$ 28 milhões para iniciativas desenvolvidas por organizações da sociedade civil sem fins lucrativos. O Programa fortaleceu mais de mil instituições e alcançou mais de 1.100 projetos.
A supervisora de Cidadania e Sustentabilidade do Sicoob Central ES, Sandra Martins, destaca que o apoio à cultura é uma das frentes do edital e contempla diferentes manifestações presentes nas comunidades onde o Sicoob atua.
“Uma oficina de percussão, nesse contexto, é uma atividade que pode promover acesso à cultura, convivência, disciplina, desenvolvimento de habilidades e fortalecimento de vínculos, especialmente quando envolve crianças e jovens. No caso de uma oficina ligada a uma escola de samba, também existe a valorização de uma expressão cultural que faz parte da identidade e da história daquele local”
Sandra Martins, supervisora de Cidadania e Sustentabilidade do Sicoob Central ES
Ela explica que o que orienta a decisão pela escolha do projeto a ser atendido é a sua consistência, capacidade de execução e o benefício social que a proposta pode proporcionar às pessoas atendidas. A análise considera critérios técnicos, como impacto social, viabilidade de execução e capacidade da instituição proponente.
De acordo com Sandra, o objetivo do Edital Social é apoiar e fortalecer iniciativas que conhecem a realidade das comunidades e atuam diretamente nesses locais. Na 8ª edição, o Sicoob destinou R$ 8,9 milhões, o maior investimento desde a criação do Edital Social.
Foram selecionados 272 projetos em 82 municípios do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Bahia, com previsão de beneficiar mais de 250 mil pessoas. Segundo dados do Sicoob ES, mais de 700 mil pessoas já foram beneficiadas pelos recursos destinados pela instituição.
“Por isso, temos projetos de diferentes áreas, como educação, saúde, cultura, esporte, meio ambiente, inclusão social e desenvolvimento sustentável. Essa diversidade permite que os recursos cheguem a necessidades distintas e que as próprias organizações locais sejam protagonistas na execução das ações”, detalha Sandra.

O que precisa ter para inscrever um projeto no Edital Social?
1 – Ser pessoa jurídica sem fins lucrativos
2 – Ser associada à Cooperativa, até o último dia do exercício anterior (31/12/2025)
3 – Estar com o cadastro da conta corrente atualizado
4 – Ter no mínimo 1 (um) ano de registro do CNPJ e finalidade voltada para as áreas de desenvolvimento local, educação, esporte, cultura, empreendedorismo e saúde
5 – Importante observar todos os requisitos previstos no regulamento de cada edição
6 – A inscrição para a 9ª edição deve ser aberta no início de março até final de abril

Desfiles competitivos marcam a década da tricolor de Goiabeiras
Nascida a partir do ‘Bloco Hi-fi’ e com forte ligação na comunidade de Goiabeiras, bairro de Vitória, a Chegou o Que Faltava carrega consigo uma história de força, criatividade, paixão e irreverência. O nome nasceu em uma das reuniões do bloco, que planejava virar escola de samba.
Durante o encontro, chegou a cerveja que todos esperavam. Animado, um dos integrantes da reunião cravou: “chegou quem faltava”. Daí o nome ficou. A última década da popularmente conhecida Tricolor de Goiabeiras é a mais vitoriosa de sua história cinquentenária.
Do retorno do carnaval nos anos 2000, a escola oscilava entre posições distantes do título, rebaixamentos e ausência nos desfiles. De 2015 para cá, surgiu uma nova Chegou o Que Faltava. A escola homenageou o comunicador Ferreira Neto, em 2015, ainda no Grupo B.
A partir de então, foi promovida ao Grupo A e no ano seguinte levou para o Sambão do Povo a história do Caboclo Bernardo, heroi linharense que salvou 1280 marinheiros de um naufrágio no oceano Atlântico e foi condecorado com uma medalha de honra pela princesa Isabel.
Na segunda divisão do Carnaval de Vitória, contou na passarela histórias populares, como Jovelina Pérola Negra (2018) e também apagadas pelo tempo, como a Lenda da Pedra Menina (2019). Em 2022, venceu o Grupo A cantando a história do milho. Com o enredo “Da lama sai muito barulho”, foi vicecampeã do carnaval capixaba em 2025, realizando um dos maiores desfiles.
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