Na última semana o Pega apresentou para o mundo do samba seu enredo para 2025. O segundo divulgado do Grupo de Acesso A, e o primeiro tema afro da temporada. “Pembelê, sereias de Zambi” é o título do tema assinado pelo carnavalesco recém contratado Jorge Mayko junto do enredista Marcus Vinicius Sant’ana. *(de origem angolana, a palavra “pembelê” significa “eu vos saúdo”).
Empolgado e ciente da responsabilidade de levar um enredo afro num estado tão conservador e dominado pelas igrejas neopentecostais quanto o Espírito Santo, Jorge conversou com o Capixabices e explicou que sereias são essas que irão para a avenida com o Pega em 2025.
“Pembelê, sereias de Zambi surge a partir do momento de desmistificação da sereia branca europeia. Essas figuras femininas fortes, que são inkices, já eram cultuados em Angola e Congo há centenas de anos atrás. Elas chegam ao Brasil por meio dos negros escravizados e começam a ser cultuadas principalmente dentro do candomblé e da umbanda, com Oxum e Iemanjá, porque estão ligadas direta ou indiretamente ao mar. O enredo é necessário pela manutenção e respeito às religiões de matriz africana”, explicou Jorge.
O artista acrescenta que apesar do estereótipo “áfrica é somente palha” que essas temáticas recebem no carnaval capixaba, a vertente utilizada pelo Pega no próximo desfile será diferente.
“É uma mescla de várias situações e momentos. Primeiro por ser um afro, mas não aquele afro que as pessoas esperam de palha, sofrimento e dor. É um afro para o lado aquático, com as vertentes religiosas, que é algo que bato muito na tecla. Nos acostumamos a não ver potências africanas na avenida. O Pega é uma escola de comunidade preta, que consegue levar esses enredos com muita garra. Vestem a camisa e se jogam. Esse pra mim foi o grande fator. Acredito no carnaval como agente transformador, é preciso introduzir e levantar questionamentos, produzir assuntos e valorizar o que é nosso. Foi um grande encontro esse enredo, as pesquisas têm sido incríveis, já fomos ao terreiro e foi uma experiência muito bonita ver que está tudo fluindo bem”.
No desfile de 2024, Pega no Samba e Jorge Mayko estavam em sintonias diferentes. A escola de Consolação havia acabado de subir para o Especial e buscava sua permanência. Jorge estava na Chegou, uma das grandes cotadas para brigar pelo título de campeã do carnaval. A apuração passou, o Pega sofreu o rebaixamento num desfile complicadíssimo, a Chegou ficou com a quarta colocação e algumas semanas depois o artista se desligou da tricolor de Goiabeiras. Rumo a 2025, os caminhos se cruzaram com uma oportunidade para o artista e para a escola. Será o primeiro carnaval solo de Jorge, numa agremiação que quer novamente o título do Acesso, grupo que consolidou o carnavalesco como um dos grandes da atualidade.
“Chego numa escola onde basicamente tudo deu errado. Foi um carnaval extremamente difícil para essa comunidade. Sentei com cada diretor e segmento para ouvir e entender. Além da construção do desfile, nós procuramos entender os anseios que temos que trabalhar nos próximos meses. Fui do Pega por vários anos fazendo comissão de frente, então já tinha uma certa acessibilidade por grande parte das pessoas, foi uma recepção muito bacana. Visitei os barracões e a escola tem uma grande quantidade de materiais que não foram para a avenida, principalmente de ferragens. Alas prontas em costura que não desfilaram por determinadas situações. Não tem nada mirabolante no nosso projeto de carnaval, trago minha experiência do fazer com nada, também para agregar ao Pega”, finalizou.